terça-feira, 2 de março de 2010

Cá com os meus botões...

Eu estava aqui no meu retiro espiritual ( também conhecido como meus aposentos ), ouvindo música ( Beatles, óbvio ) e reparei que nós cometemos um pecado mortal. Nós, o melhor grupo de escrita criativa já visto, não temos uma música tema! COMOOOOOO ASSIM ? Você deve estar se perguntando... mas é verdade.
Acredito que música (pelo menos para mim ) ajuda muito nos momentos de bloqueio mental, logo, vamos escolher uma música tema para nós?
Aaaah por favor! *-*
Os banidos precisam de uma música :D
Beijinhos
Nicole G.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Decaslus, parte 1

Oie pessoas eu sei que estou sumida mas espero ver todo o mundo hoje no piquenique banidesco! Vou postar a primeira parte da historia de Decaslus, falta a segunda parte, Howl, que está por fazer :P preguiça mata. Beijos a todos!
P.S- Quero opinioes ^^



Decaslus


Tolos.
‘Pegar cristais no Norte’, ‘o Sul é amaldiçoado’. Besteiras, sempre encontro os maiores cristais no Sul, e ainda estou explorando, deve ter imensos aqui. Nunca tinha vindo nesta parte da montanha e encontrei pelo menos três de 40 mil folhas de peso.
-Anciãos tolos – pensava alto – Um dia eles verão, vou fazer uma mudança nesse mundo, quem pensam que são para dar ordens toda a hora? Além do mais, o que tem de amaldiçoado aqui? Umas pedrinhas? – ri enquanto chutava uma das pedras do caminho
-Tem alguem ai? – Escutei uma voz fraca, quase sumida, talvez a de uma pessoa de idade avançada – Garoto me ajuda...
Me virei para a direção de onde tinha sentido a voz, uma caverna, quem quer que fosse estava lá dentro, então, com um misto de curiosidade e espanto, (pois nunca ninguem vai no Sul) avancei receosamente para dentro da estranha gruta.
- O que você quer? – Perguntei enquanto me aproximava – Quem é você? Sei que não é de meu povo!
Tinha a certesa disso, era sensivel para vozes, todos os elfos são eu acho, menos a Miriam, sim, ela não sabe fazer nada, nem mesmo...
- Calma garoto – o velho voltou a falar, tinha ate esquecido dele, as vezes eu me perco nos pensamentos... – Sou apenas um velho mago.
Mago? O que era isso? Pelo menos agora tinha certesa, ele não era de Raringu, mas..como foi parar alí? E porque sabia falar nossa lingua? Que coisa estranha.
Foi então que cheguei na parte da caverna em que ele se encontrava, estava sentado em um canto, era de fato um velho, tinha uma roupa muito desgastada, quase parecia que suas cores estavam perdidas no tempo, pois não dava para identifica-las, unica coisa que havia ainda colorido no seu corpo era o pendente de seu colar, tinha uma forma estranha, suas cores eram azul e dourado...aquele azul é parecido com a cor dos olhos dela, o dourado de seu cabelo, juntos nao ficam tão ruins assim, ficam até bonitinhos..hã?? Sim...estou delirando, ela bonitinha? Senti vontade de rir, mas segurei, ei..mas acho que é a segunda vez em menos de quinze minutos que eu penso nela, isso não é normal,o Sul deve ser amaldiçoado mesmo.
O velho riu.
Eu me assustei, dessa vez tinha esquecido mesmo que ele estava ali. Estou ficando louco.
-Pela sua cara de assustado minha resposta não serviu de nada né? Ou será que foi meu lindo aspecto? - falou calmamente.
Reparei que parecia estar ferido, não respirava num compasso normal.
-O que está fazendo aqui? – perguntei rudemente - Chega de brincadeiras, os Anciãos proibiram os Estranhos bem antes das bodas de Crisantemo das Árvores do Destino, e até parece que vou cair nessa historia de ‘mago’, coisa sem sentido...
O velho riu, achei que aquilo ia se tornar um habito...dar risada de tudo o que eu falo...
- É uma loga historia, mas se tiver tempo...- falou, apontando para um pedra na sua frente, mas pelo menos 3 metros afastada. Não vi nenhum tipo de ameaça então sentei, e ele continou – Primeiro que tudo, Mago é uma pessoa que faz magia, ou seja tem poderes especias que lhe dão permisão para fazer coisas fora do comum.
Foi minha vez de dar risada.
-Fora do comum?- falei rindo- Todos os elfos conseguem usar magia!
-Interessante – Falou de um jeito estranho, um misto de satisfação com interesse era reconhecivel em sua espressão.
Ok, deixei de gostar da situação, mas como posso ir embora e deixa-lo aqui tão fraco?
-Ainda não falou o que está fazendo aqui – insisti, ainda rudemente, não queria correr riscos.
Ele olhou para mim, depois riu. Sabia que estava se tornando um custume. Eu revirei os olhos
-Tabom.. – começou contrariado – Pode ser até dificil de acreditar mas eu sou de outro mundo.
-Sim, claro. – falei cetico – O que você é então? Um viajante das folhas elisias vindo do espaço sideral?
Ri, ri simplesmente por rir, na verdade não tinha graça nenhuma e eu me via cada vez mais enterrado na situação.
-Ei garoto, não sou eu que tenho orelhas pontudas não! – Falou como que ofendido. – Eu sou de outro mundo, quer acredite quer não.
-Você é que tem essas orelhas pequenas e estranhas nem venha falar das minhas! – Retruquei – Mas de fato você não parece ser daqui...
Eu já sabia que ele não era daqui, mas de outro mundo? Mas, se pensar bem, de que outro lugar ele poderia ter vindo? Este mundo se resume apenas á cidade em que eu vivo, o Norte e o Sul, ambos com grandes montanhas. Ele não era daqui mesmo, mas então, porque estava aqui?
- Eu estou aqui porque fugi de meu mundo – Continuou o velho estranho – Eu ia ser banido por isso com minhas ultimas forças abri um portal para fugir e, por acaso vim parar nesse mundo. Antes um mundo desconhecido que um mundo de Nada.
- Banido? Banido pelo quê?!?! – Falei, com a voz num tom esganiçado.
Ser banido não era coisa boa, Ser banido é aquilo que os anciãos fazem com os criminosos, com os assassinos! Ele ia ser banido e eu estou aqui, falando com ele? Ai..isto não vai acabar em coisa boa, é melhor eu ir embora, sim, vou embora, alem do mais devem estar me procurando, isso mesmo, tenho certeza que estão me procurando, vou até tomar xingo de Miriam, ela vai ficar muito brava, consigo até imaginar sua cara de preocupação, fingindo que não vai mais falar comigo como sempre faz quando venho no Sul...
O velho fez um som alto, para chamar minha atenção, será que estava assim tão na cara que eu me perdi nos pensamentos?
- Por nada de especial- falou com o sorriso mais amavel que alguma vez tinha visto.
Mas que grande ator, quaze me convenceu nessa.
-É claro! Você quaze foi banido para o Nada por nada! – respondi no mesmo tom esganiçado de antes – Me desculpe, mas eu tenho que ir agora.
Levantei. Virei as costas e dei dois passos, e, apenas dois passos depois escutei sua voz denovo.
-Você não vai nem me ajudar mais? Que preconceito...
Uma dor lacinante percorreu meu corpo, paralisando cada musculo meu, me inpedindo de ir embora, parecia ser um misto de trovão com um fogo incessante que viajava por minhas veias, sentia a temperatura aumentar no meu sangue, meu coração parecia bater cada vez mais rapido, tinha a sensação que esplodiria a qualquer segundo. Queria fechar os olhos, estava tudo desfocado. Tentei me libertar, mas era inutil, continuava paralisado. Meus pés sairam do chão, estava sendo levantado devagar por uma força invisivel, agora, para alem da dor, sentia falta de ar, o que quer que estava me levantando estava tambem me sofucando.
Tudo, era a dor.
Não conseguia pensar. A dor se tornava cada vez mais forte, o ar cada vez mais escasso e o grito preso em minha garganta não queria sair, talvez por não ter ar suficiente para tal, ou talvez minhas cordas vocais estivessem tambem paralizadas. Ou, simplesmente não arranjei forças para tal.
Embora toda a dor, não desejei morrer. Não o fiz, não ia desistir de minha vida simples, eu gosto das coisas que tenho, e sabia que iria conquistar coisas melhores, sabia que Miriam estaria me esperando.
Miriam. Eu tinha que fugir, ela precisava de mim, ou talvez, eu precisasse dela.
Ela era fraca e desastrada demais para sobreviver sozinha.
Apesar da dor, se podesse teria esboçado um sorriso com esse pensamento.
Escutei uma risada, uma risada ja conhecida.
- Nossa você é teimoso não? Nenhum dos outros demorou tanto tempo assim para ser amansado...
Pensei um milhão de pragas para o velho, não as falei simplesmente por não conseguir.
- Nunca nenhum dos outros tinha razões suficientes para não desejar a morte, mas você tem não é? Tudo bem, parece que esta vez vai ser a primeira que vou ficar sem meu capricho, afinal este corpo não dura muito mais, preciso urgentemente de outro.
Velho maldito, que história era aquela de corpo novo ein? Acha que eu sou o quê? Uma marionete?
Risadas denovo, será que ele passa a vida inteira dele rindo? Não tem nada melhor para fazer? Velho sadico! Rindo me fazendo passar toda essa dor. Que seja amaldiçoado com todas as forças das folhas negras das Árvores do Destino...
-Ai garoto – Falou limpado as lagrimas de dar risada dos olhos – Você me mata sabia? Você pensa cada coisa engraçada! O pior é que acertou, vai ser uma marinete mesmo, este corpo velho não consegue mais andar, ainda mais nessa gravidade mais alta desse mundo piorou... Eu adorei você, vai ser um prazer conviver durante os proximos..ham..qual é a idade de elfo mesmo? 600..700 anos?
E, com um movimento com o braço raquitico a dor parou e eu cai com um baque surdo no chão.
-Ma...Maldi..to – Minha voz estava fraca pela dor que acabara de sentir, minha cabeça latejava com a pressão, senti meus olhos fecharem mas resisti acordado. Tentei fugir, mas minhas pernas estavam fracas demais, eu estava fraco demais.
-Teimoso mesmo não? Era para você dormir...mas tudo bem, já que abdiquei da tradição mais uma coisa nao vai fazer diferença.
E com outro movimento de braço, os olhos do velho se fecharam e seu corpo caiu, mais uma vez a dor, minha cabeça latejava muito forte agora, eu gritei, mas o som nunca chegou a meus ouvidos, em vez do grito, veio uma risada.
-Apesar dos contratempos, parece que consegui! – escutei
De onde viera a voz? O velho parecia morto, so restava eu..
Senti minhas mãos mexerem sozinhas, e minha cabeça virar na sua direção.
‘Mas que...’
Gritei assustado, mas minha boca não emitiu nenhum som
Risadas.
‘O que você fez comigo seu desgraçado?’
Eu não podia falar, mas ele me escutava.
-O que você acha? É obvio que pussuí seu corpo! – falou com voz de contentamento, estava feliz, pegou sua presa.
Tentei me mexer, lutar, expulsar ele de dentro de mim, mas eu ja não era mais senhor de mim mesmo, agora ele me controlava, eu não passava de nada mais que uma marionete, um casulo para aquela alma amaldiçoada, maldito, um dia me pagará.
-Você tem um corpo bom...muita força...com umas alminhas para eu poder me trasformar fica tudo perfeito – meu antigo rosto esboçou um sorriso.
‘Almas?!?! Aqui não existem almas nenhumas seu velho, pode ir embora agora’
-Como assim não existem? Sua cidade está cheia delas!
Então meu corpo se virou, ainda com um sorriso estampado no rosto, e, tão rapido como se fosse eu correndo, ele se dirigia para a cidade, com eu apenas de bagagem.
-Ei garoto, qual é seu nome? Já que vamos passar tanto tempo juntos não vale a pena guardar rancor né? Eu sou Howl.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Este post eu escrevo em forma de desabafo.
Não sei se será tão bem escrito quanto os outros que foram revisados e que receberam opiniões e sugestões antes de serem postados, não sei se ele te fará pensar ou lhe será interessante. Não sei nem sequer, o que estará escrito na próxima linha.
Estou escrevendo o que meu coração está gritando pra mim, implorando para que alguém escute ele, mas ninguém o faz. As únicas pessoas capazes, estão longe demais para ouvi-lo.
O que é solidão?
Me vejo com pessoas ao meu redor, um numero maior de pessoas do que antes, mas quais pessoas? Porque ainda sinto esse vazio e meu coração ainda grita sem ser ouvido?
Me sinto só, no meio da multidão.
Me sinto só, porque não tenho quem me dê a mão e me ajude a levantar quando eu cair.
Me sinto só, sem aqueles sorrisos os quais, espontaneamente me faz sorrir também.
Me sinto só, pois não tenho aquele abraço que me esquenta quando me sinto fria, aquele frio que nenhum casaco pode aquecer.
Me sinto só, sem as vozes as quais meu ouvido estava acostumado e agora tudo soa como um violão desafinado.
Me sinto só, sem aquele olhar que me dizia pra continuar.
Me sinto só, sem o motivo pelo qual eu acordava todos os dias.
Me sinto só, sem um milhão de motivos pelos quais eu os chamava de amigos.

Amizade verdadeira, que sei que pra sempre poderei contar.
Amizade verdadeira, que eu podia contar os meus maiores erros, meus maiores defeitos sem ser julgada ou recriminada, apenas me ajudavam a melhorar.
Amizade verdadeira, que me faz ter esperança.
Amizade verdadeira, que me dá forçar para continuar, mesmo longe, ainda sinto o calor e a positividade vinda de vocês.
Amizade verdadeira, que nunca será esquecida.
Amizade verdadeira, que sempre será verdadeira.
Amizade verdadeira, que sempre será amizade.
Amizade verdadeira, que superará a força do tempo e da distancia.

Eu amo vocês, amigos.

Hikari

Acabei apagando isso ai também... Como sou distraida =p Ainda bem que tinha o documento guardado...



HIKARI

Bom, vou lhes contar a minha história. Não posso garantir que ela tem um final feliz, mas... Também não direi que ela já terminou. Deixo por conta de vocês interpretarem como quiserem todos os acontecimentos.
Meu nome é Hikari, que significa luz. Sou o que chamam de Tengu, uma espécie de “demônio” alado que vive em montanhas e florestas. Somos divididos entre clãs, e o líder de cada um deles é chamado de Dai Tengu. Meu pai é o líder do clã responsável pela justiça da sociedade.
A tradição de meu clã é que seus membros aprendam a arte da espada, algo que eu provei não ter a mínima vocação e odiei durante toda minha vida, fugindo varias vezes dos treinos diários, para a infelicidade de meu pai.
Aos oito anos conheci Chiharu, uma garota pertencente ao clã espiritual, que competia pela posição do meu. No começo eu a detestei, mas depois de um tempo ela se tornou minha melhor amiga. Como normalmente as pessoas me ignoravam e esnobavam pela falta de habilidade com a espada e indiferença quanto às tradições do clã, quando ela me tratou com carinho e atenção, logo me apeguei a ela.
Chiharu me levou a um mestre da arte do arco e flecha chamado Cho, e logo me apaixonei pela arma e me mostrei apta para seu uso. O arco e flecha era considerado uma arma de covardes por seu uso à distância, sem entrar realmente na batalha, portanto meu mestre me aconselhou à continuar indo aos meus treinos de espada e não permitir que ninguém soubesse que eu estava praticando com o arco.
Esse esquema durou vários anos sem nenhum problema, e logo me tornei tão boa quanto meu mestre. Chiharu e eu nos tornamos tão próximas como irmãs, e podia contar com ela em qualquer situação.
Tudo parecia perfeitamente bem até um dos subordinados de meu pai me seguir para ver o que eu fazia sempre depois dos treinamentos. Eu estava audaciosa por excessiva crença em minhas habilidades que não tomei as devidas precauções.
Foi um escândalo. Papai ficou furioso e Cho foi punido por intervir nas tradições de um clã que não dizia a seu respeito. Fui proibida de sair de casa, o que é claro, não obedeci, e fugi ao lugar que sempre costumava encontrar Chiharu, mas ela não estava lá. Deprimida, sentei-me e comecei a cantarolar uma musica suave.
Nesse instante surgiu um garoto, mais ou menos da minha idade, na entrada do esconderijo. Era alto, cabelos e asas negras como o céu noturno e olhos estranhamente da cor lilás. Ele sorriu para mim e elogiou a canção.
Logo depois fiquei sabendo que ele era um amigo do clã de Chiharu, e se chamava Yami, em minha língua trevas. A partir desse dia ele passou a vir me ver, pedindo para ouvir mais uma canção. Alguma coisa nele parecia me hipnotizar, me deixar sem ação, com o coração disparado. Eu estava deprimida e também fui severamente punida por fugir novamente, ao mesmo tempo em que Chiharu parecia não gostar de me ver com ele, e agia friamente na hora que mais precisava dela, então quando estava com Yami era a única hora que me sentia confortável.
Começamos a nos ver apenas na calada da noite para eu não ser descoberta. Porém, numa certa noite ele não apareceu. Fiquei o dia todo inquieta e tensa, e quando a grande Amaterasu, a deusa que trazia a luz do dia desapareceu, e somente o sons das cigarras eram ouvidos, ele surgiu à minha janela.
“Temos que fugir”, disse ele, entregando meu arco, uma enorme aljava de flechas, e uma capa preta, igual à que usava. Também carregava consigo uma enorme foice que costumava usar. Confusa o segui, e enquanto voávamos, ele me contou o que estava acontecendo.
O ancião do clã espiritual teve uma visão durante o sono. Previu que alguém iria revolucionar o modo de vida da nossa espécie, e causaria um banho de sangue. Essa pessoa tomaria o poder e controlaria tudo de acordo com sua vontade egoísta.
Parecia que alguém havia manipulado a profecia para pensarem que eu seria tal pessoa. Agora havia uma ordem de execução em andamento. Meu pai era o líder da operação.
Nesse ponto nós pousamos. Eu não conseguia mais me mover, as lagrimas brotando dos olhos. Por que isso estava acontecendo? Não podia acreditar. Meu próprio pai?
Começamos a perceber uma movimentação na floresta. Então já haviam descoberto que eu fugira. Não era hora de perder tempo. Com um grande esforço, sequei as lagrimas do rosto. Yami me fitava com um olhar pálido e preocupado.
“Vamos”, sibilei reunindo todas minhas forças, e virando-me para decolar. Mas ele me segurou e puxou num abraço apertado.
“Vai ficar tudo bem” murmurou ele em meu ouvido. Em seguida segurou meu rosto e beijou suavemente meus lábios.
Um grupo de Tengus de mais ou menos vinte surgiram de todos os cantos à nossa volta. Droga, havíamos perdido tempo demais. Estávamos cercados. Todos os guerreiros eram do meu clã. Tentei conversar com eles, explicar a situação, tudo em vão. Eles tinham ordens de me levar sob custodia até meu pai, e me imobilizar junto com qualquer um se oferecêssemos resistência.
Antes que pudesse pensar em algo Yami partiu para cima de um deles e retalhou sua asa. Entendi perfeitamente a mensagem. Não havia outro jeito, teríamos que forçar a passagem. Carreguei o arco e atingi mais dois. O que se seguiu foi um massacre. Todos nos atacaram ao mesmo tempo, mas estávamos furiosos e enquanto eles tentavam dos imobilizar, nós não hesitávamos em matar.
Encontramos mais grupos depois deles, e após termos matado um número que provavelmente já passava dos cinqüenta, estávamos cheios de arranhões, exaustos e no nosso limite. Haviam dois dardos fincados em uma das minhas asas que atrapalhavam o vôo, e Yami trazia um corte no peito que sangrava perigosamente.
Meu pai se aproximou planando de nós dois, olhando horrorizado para a pilha de corpos e manchas de sangue nas nossas roupas. Quando o vi um calafrio percorreu minha espinha e mais uma vez as lagrimas atrapalharam a visão.
“Pai...” supliquei com a voz seca.
Ele fitou-me com olhos frios e torturantes, e sacou a espada.
“Você não é minha filha”
Não consegui reagir e quando a lâmina fria se aproximou Yami foi quem, com esforço, conseguiu bloqueá-la.
“Hikari, faça alguma coisa!” gritou ele contendo mais um golpe da espada.
Yami estava se contendo. Ela não mataria meu pai. Mas era mesmo meu pai? Ele nunca havia me tratado com afeto como deveria, eu sabia que ele sempre me odiara, e agora brandia uma arma contra mim. Talvez... Talvez me culpasse pela morte de minha mãe, por ela ter ficado fraca depois do parto e ter contraído aquela estranha doença...
Tinha de me mover, Yami estava perdendo. Mas, quem escolher, a família ou o amor? Não podia mais hesitar. Ele conseguiu desarmar Yami, a foice voou alguns metros e foi se estatelar no chão. Novamente ergueu a espada, dessa vez para desferir o golpe final.
Mas a espada caiu de suas mãos quando uma flecha perfurou seu peito. Lançando-me um ultimo olhar agonizado, desabou sobre uma árvore.
Tremendo até o ultimo músculo, me aproximei de Yami, também apavorado. Parecia que havia acabado. Inopinadamente, uma onda de energia nos atingiu e paralisou. Magia, a habilidade do clã espiritual. O que eles faziam ali? Yami de repente ficou ainda mais pálido. Havia sentido uma presença que eu não conseguia sentir. Logo percebi o motivo.
Dois enormes olhos dourados emergiram das trevas no segundo seguinte nos vimos diante de Chiharu. Mas não era aquela garota sorridente e gentil que havia conhecido. Uma aura assassina emanava dela, e quando falou, sua voz era cheia de rancor e ironia.
“Então mandar o velho pra matar a filhinha não funcionou, não é? Mas devo admitir que não esperava que você conseguisse atirar nele”
“Sua...” Yami estava furioso, enquanto eu não entendia o que estava acontecendo, ou melhor, não queria acreditar. “Foi você, o tempo todo...”
“E você, o bobinho apaixonado, nem percebeu o que eu estava tramando”
Senti a compreensão se espalhar como um veneno agonizante.
“Você parece meio confusa, Hika-chan” continuou ela com um sorriso maligno “Não suspeitava que sua querida amiga estivesse por traz do seu mandado de morte?”
“O que...?”
“Deu o maior trabalho manipular a mente daquele velho vidente pra fazê-lo pensar que ao invés de mim era você que queria fazer uma revolução. Mas, no fim valeu a pena. Bom, você ainda não está morta, mas nesse estado não me apresenta ameaça. Acho que é melhor se eu mesma terminar o trabalho.”
“E você pensa que eu vou deixá-la encostar nela?!”
“Não se intrometa, isso não é da sua conta, Yami. Depois de matá-la será a sua vez”
O desespero dominava meu corpo e não me permitia esboçar reação. Duas traições em uma noite. Mas Chiharu... Eu confiava nela muitas vezes mais do que em meu pai. Raiva começou a tomar lugar dos outros sentimentos, eu havia sido tão burra!
“Depois que eu levar sua cabeça para os anciãos eles não terão mais do que desconfiar sobre mim, e terei liberdade absoluta para realizar meus planos. Então, podemos começar?”
Ela ergueu a mão para invocar mais uma magia. Ainda estávamos paralisados, não conseguia mover meu braço para alcançar as flechas. Era o meu fim, pensei, que deprimente. Lancei o que pensei ser o ultimo olhar a Yami. Pelo menos, podia vê-lo antes da morte.
Porém ele não perecia satisfeito com aquele fim. Seu rosto se contorcia em esforço e tanto suor como sangue pingavam ainda mais intensamente. Uma bola de energia começou a se formar na mão de Chiharu enquanto ela recitava o encantamento. A última palavra saiu de sua boca e o sorriso maligno se tornou ainda mais ofuscante.
“Adeus”
Um lampejo de luz ofuscou minha visão durante um instante, seguido de um grito furioso. Ainda sem enxergar, senti algo quente escorrer sob meus pés. Aquela tensão que imobilizava meu corpo desapareceu, pelo jeito a magia havia acabado. A visão começou a voltar difusa, e me vi em frente a uma cena aterradora.
Chiharu segurava o lado direito do rosto ensangüentado, como se algo tivesse atingido seu olho. Aos meus pés jazia Yami, um enorme buraco aberto em seu peito.
As lagrimas novamente chagaram, com muito mais intensidade, enquanto me ajoelhava à seu lado. Com as mãos tremulas segurei seu rosto.
“Não, não...”
“Tudo bem, isso ia acontecer de qualquer modo.” gemeu ele com a voz fraca “ Luz e trevas... Assim como o dia e a noite, um precisa morrer para o outro nascer”
Aquele mesmo sorriso caloroso de sempre encheu seu rosto. Depois, os olhos perderam o brilho, os músculos tensos relaxaram, a pouca cor da pele que restava desapareceu. Um dos punhos que estava cerrado se abriu deixando a mostra algo que parecia um olho banhado de sangue
“Desgraçado... Como... Como pode... Meu olho... Com suas mãos” Chiharu estava possessa, e ofegava com a dor do ferimento. “Desgraçado... Desgraçado!”
Levantou-se com dificuldade, e cambaleante mirou a mim com ódio
“Queria salvá-la, não é? Pois bem, não vou matá-la.” Ela havia perdido a sanidade. “Não... Vou mandá-la para o pior lugar do mundo, esquecido pelos deuses, dominado pelo caos. Onde tudo funciona ao contrário. E ela sofrerá pela eternidade por sua morte. Vou mandá-la para o NADA!”
Mais uma vez a mão se levantou. Percebi que era hora de contra-atacar. Quando fiquei cega perdi o arco, e agora revirava todos os cantos à sua procura. Estava bem próximo, o alcancei no momento que um redemoinho de energia negra se formava à minha frente. Puxei a corda, contando apenas com um tiro, e soltei-a no momento que a massa escura me engoliu.
Depois disso não vi mais nada. Tudo girava. Mas estava mesmo girando? Não sabia dizer, não sabia nem se estava viva ou morta... A dor dos ferimentos sumira. Sentia-me parcialmente confortável, apenas algo lá no fundo parecia me cutucar como um espinho. O que era? Não lembrava de mais nada. Por que aquilo estava acontecendo mesmo?
Acordei do devaneio com um baque, de volta a realidade. Os ferimentos voltaram a doer, ainda mais intensos. Abri os olhos. A paisagem à minha volta não era igual a nenhuma que já havia visto. Terras e mais terras planas seguiam por quilômetros, e ao longe se podia ver algo como a silhueta de uma cordilheira. Onde estava?
“Bem vinda ao Nada.” Pensei comigo mesma














Enquanto isso em Sora, o mundo dos Tengu...
Chiharu estava ajoelhada com uma flecha trespassada no peito. Gotas vermelhas pingavam e cobriam desde seu cabelo castanho até as vestes finas.
“Droga... Devia ter levado mais a serio a outra parte da previsão que dizia que a Luz viria dos céus para impedir que meus planos se concretizassem. Hehe, agora já é tarde.”
Algumas horas depois Tengus de todos os clãs se juntaram horrorizados para ver a cena do massacre. O corpo de Chiharu, frio e sem vida, foi levado para ser cremado junto com os outros, à base do Monte Fuji.

Informações sobre Hikari:
Bom, estão ai mais algumas informações interessantes sobre a minha personagem ^^
Cor do cabelo: loiro
Cor dos olhos: azul elétrico
Cor das asas: branco
Personalidade: hiperativa, teimosa, grosseira, persistente, bruta, irritante, corajosa
Coisas que carregava quando chegou ao Nada: arco, aljava de flechas, dardos envenenados, uma zarabatana, dois vidrinhos de veneno, uma capa preta longa.

Uma bruxa e um ogro - Kali e Gai

UMA BRUXA E UM OGRO
KÁLI E GAI


O som era familiar demais. Tudo ali era familiar... só não mais havia o cheiro da madeira queimada... o calor lhe subindo pelo corpo. Káli acordava de um pesadelo para outro.
O ar úmido invadiu-lhe narinas nervosas... O ruído outrora tão familiar das cigarras, agora lhe agredia os ouvidos e o peito...Uma forte dor no peito... um aperto... abriu os olhos e pode ver que sobre seu peito havia um galho quebrado.
Abriu os olhos lentamente e analisou ao redor. Ao menos a falta de iluminação não agredia sua visão. Seria dia? As árvores eram tão altas que suas copas sumiam de vista...
Kali tentou livrar-se do peso. Invocar qualquer tipo de magia estava fora de cogitação.
Nisso, um vulto surgiu em meio à mata. Um homem vestido de preto, com um tipo de roupa que nunca havia visto.
Gai ainda estava imaginando se sonhava ou não. Odiava áreas fechadas, era uma afronta contra sua liberdade... A floresta densa, o fato de não conseguir ver o céu, o sufocava. Justo o céu... foi para lá que a razão de sua vida se dirigiu, para sempre...
“Ei, ei... linda donzela... Pelo jeito, o galho está pesado, não? Não se preocupe, Yuuki Gai está aqui para te ajudar” – disse, abrindo um largo sorriso assim que viu aquela mulher de constituição delicada presa debaixo do pesado galho. “Mas claro que isso vai te custar algo...”, e, erguendo o galho, disse: “... um maço de cigarros seria perfeito...”
“Quem? Nossa... quem é você?” - Gai retirou o galho e estendeu a mão para Káli.
“Eu? Bom, já me chamaram de muitas coisas... mas você pode me chamar de encantado com sua beleza”, respondeu, sorrindo, enquanto Káli segurava sua mão. – “Quem sabe... poderíamos tomar algo... sei lá... estou perdido nesse lugar há algum tempo... e, pelo que vejo, não há mulheres bonitas por aqui”, concluiu, permitindo que Káli se soltasse.
Káli questionou-se se aquilo não seria um sonho. Em um momento, presa à fogueira. Em outro, em alguma floresta que desconhecia completamente. Passou a analisar detidamente o ser sorridente à sua frente. Sua intuição era fraca, mas algo lhe dizia para não confiar naquele ser. Retirou das mãos dele as suas e recolheu-se em seu manto.
“Ei, ei... não fique nervosa, ok? Estamos no mesmo barco! Isto é, no mesmo inferno, que é este lugar! Então, o que me diz do cigarro?”, prosseguiu Gai, tentando acalmar a figura espantada à sua frente. “Você faz ideia de que lugar é este?”
Ouvia-se um som de água corrente vindo do sudoeste, as árvores eram altas e tampavam o céu, deixando aquele lugar ainda mais misterioso e sombrio. Era possível sentir diversos cheiros, mas não era possível sentir o vento. Káli sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquilo era mau sinal. Olhou novamente e ainda com desconfiança para o ser à sua frente. Suas roupas eram muito estranhas, o que lhe arrancou um pouco a noção de tempo.
“Viu um fantasma? Eu te assusto?” - perguntou Gai, estendendo os braços, como que rendido: “Olha, amigos, ok? Não vou te pedir mais cigarros”.
Káli não respondeu. Desejou ardentemente saber onde estava... Mas só se lembrava de sua pele queimando. Bruxas queimam na fogueira. “Não, não tenho cigarros, cavalheiro”.
Gai deu as costas. De repente, seus olhos perderam o brilho. Olhava para o nada, como se tentasse resgatar da memória alguém que havia deixado de ser há muito tempo.
“Ok... não me importo” - disse. “Sabe... ando sozinho. Não gosto de andar com gente... só me aproximei porque você estava debaixo daquele galho”, disse, apontando para o pedaço de madeira, estendido ao lado.
“Olha... você sabe onde estamos?”
Gai afastou-se. Nisso, sentiu que Káli, a mulher que acabara de salvar, se aproximava.
Káli, confusa, ainda sentia o peito arder. Recostou-se em uma árvore. Só sentia que precisava chorar. Era aquilo a morte? Será que havia morrido e estava no inferno tão propalado pela Igreja Santíssima?
Gai parou. Também ele estava perdido. Desejara sumir para um lugar distante, para que, no “nada”, pudesse estar perto da mulher que um dia amou. De repente, Gai virou-se para Káli novamente. Agora, seus olhos brilhavam. “Você... é um tanto diferente nessas roupas? De onde é?”. Seu humor mudara.
“Sou de Dara, uma pequena aldeia ao Norte...E você?”
Ele sorriu. “Japão. Tokyo. Já ouviu falar? Certamente, um lugar mais agradável do que este inferno... é quente aqui”.
“Japão? eu nunca ouvi falar...! Você usa roupas muito estranhas... Afinal... estamos no Japão ou estamos em Dara?”
Gai olhou à volta. “Creio que em nenhum desses lugares, querida”. Tocou as plantas, sentiu o ar úmido. “Isso me lembra Okinawa. Mas certamente não estamos lá”.
Não havia vento, mas Káli sentia que era preciso sair dali. Tomou a mão de Gai e partiu em frente. Conhecia florestas, era filha delas, embora aquela fosse totalmente diferente. Havia algo diferente no ar... mais do que os idiomas diferentes que falavam, e que ela só poderia traduzir por magia, mais do que aquela roupa, Káli sabia que havia muito mais por ali. Certamente fora lançada a algum lugar do espaço pelo mago das trevas... e só esperava que não fosse a prisão eterna. Sentiu a resistência de Gai ao toque de sua mão, mas, firme, puxou-o pelo caminho. Agora tinha pressa.
“Ei, ei, ei... não acha que nos conhecemos há pouco para um encontro”, disse Gai, malicioso. Depois, abruptamente, libertou-se das mãos de Káli. “Olha, se quer minha ajuda para sair aqui, tudo bem... mas não somos amiguinhos por isso, ok?”
“Caro cavalheiro, já ouviu falar em bruxas? Se não ouviu, lá na sua terra de nome estranho e roupas estranhas, deveria dar um pouco mais de ouvidos à floresta”.
Gai libertou-se novamente. Mediu Káli, sustentando o ar malicioso. “Você não se parece com uma bruxa!!” . Soltou uma gargalhada que ecoou pelos galhos úmidos.
“E, você, não é um inquisidor... é magro demais para isso”, respondeu, no mesmo tom de ironia, surpreendendo-o.
“Uh... golpe baixo!!”, falou Gai, agora, mostrando uma ponta de nervosismo. “Olha, se quer minha ajuda, tudo bem... mas isso acaba quando sairmos daqui. Vivo sozinho, e quero continuar assim”.
“Olha, ouça a floresta, isso não é normal. Há algo aqui, algo que bloqueia minha magia. Se não quiser me seguir, entregue-se à sorte da Deusa... Eu vou seguir!”
Káli deu às costas ao estranho e tentou sentir um vento que não havia.
Vendo que Káli se afastava, Gai apertou os passos. “Ei, ei, boneca... estava brincando... afinal, andar por aí sozinha sem um homem para te proteger pode ser perigoso”.
E, novamente, colocou-se ao lado de Káli. “Yuuki Gai. Ao seu dispor”, disse, estendendo a mão.
“Não há brincadeira quando a floresta fala assim, cavalheiro de outras eras”.
Káli encolheu-se mais uma vez dentro do manto, e mais uma vez a sensação de morte a invadiu. “E, na minha aldeia, os homens não são os protagonistas, se é que você pode entender...”
Káli apertou o passo. Procurava instintivamente pelo rio. Lá, uma magia seria mais fácil. Só precisava de um espelho d’água.
Gai sentiu a ira crescer. “Quem você pensa que é para falar assim...?”
“Eu sou Káli, filha de Kalil. Filha da Floresta.”, disse, taxativa.
Por sua vez, irado, ele segurou Káli pelo braço. E, nisso, ela pode perceber que, por trás daquela casca grossa, havia um coração que sofria.
“Cavalheiro, solte-me. Precisamos chegar ao rio... Sinto que seu coração sofre... Mas o sofrimento maior é aquele ao qual nos condenamos ao chegar aqui. Suspeito que estejamos no Nada. O rio parecia aproximar-se... No descuido dos galhos, por entre uma e outra sombra maldita”.
A voz do rio erguia-se para mais o além. Gai deteve os movimentos, atônito.
“Ela sabe sobre mim...?”, pensou.

Káli atirou-se de joelhos às margens do rio. Precisava de alguns instantes... Olhou profundamente para ele. Era morto. Eles, definitivamente, estavam no Nada. Um gemido terrível cortou-lhe a garganta: Ninguém escapa do Nada.
“Você está bem?”, perguntou ele, ao perceber o pavor nos olhos de Káli.
O olhar de ansiedade de Káli deu lugar a um olhar de ódio.
“Cavalheiro, a morte é melhor do que o Nada. E é aqui que estamos”.
Gai deu passos para trás. Como num raio, lembranças doídas voltaram à sua mente.
Já Káli lembrou-se da iniciação e de como os mitos descreviam uma terra que tragava tudo, e não era nada. Olhou para Gai que, perdido em pensamentos, parecia não ter consciência de onde estava. Mas não havia muito tempo para pensar. Contornando as margens do rio, aproximavam-se treze criaturas, certamente enviadas pelo Imperador daquele reino. Káli imediatamente pôs-se em posição de espreita. Agarrou a mão de Gai e o atirou ao chão.
“Schhhhhhhh!”- ordenou.
Gai obedeceu. E Káli pode sentir que ele também estava com medo.
Havia mais de dez criaturas do outro lado do rio. As pupilas de Káli dilataram-se. Algo não estava de acordo com seus estudos: pela Lenda, não havia vida no Nada...
“Ei, bruxinha... devo me preocupar com sua cara de assustada?”, perguntou Gai, incrédulo.
Káli começou a afastar-se, recolher-se para a floresta, sem desgrudar os olhos das criaturas... Puxou Gai perto dela. Desamarrou o manto e o estendeu sobre as costas dele. Mas o cheiro atiçou os monstros. Conseguiram ouvir algo. As presas estalaram com ansiedade. Comida. O manto sagrado de Káli, agora, era inútil. O único presente de sua mãe.
“Que coisa é essa?”, perguntou Gai, confuso.
O manto os poderia fazer invisíveis. “Schhhhh, você quer morrer,cavalheiro?Se não, fique quieto!!!”
“Hehehe... ninguém me chama de ‘cavalheiro’ há anos. Realmente, você não me conhece, não é?”
“Você pode ficar quieto e bem junto de mim, por um momento, senhor Ogro?”
“Seria um prazer, mas...”
Perceberam de onde vinha o movimento. Abanaram as caudas pontudas e ameaçadoras e partiram para o suposto alvo. Gai e Káli perceberam as criaturas se aproximarem. Estavam perdidos se os pegassem.
“Eles estão há menos de 100 metros, cale a sua boca!”.
“Donzela... talvez não goste de minha voz, mas tenho uma sugestão... aqui é mata fechada.... se ficarmos encurralados, estamos fritos. Tenho uma ideia”, disse, com brilho nos olhos.
Káli olhou para ele, confusa.
“Você pode correr, não pode?”, agora, era Gai quem apertava sua mão. Seu instinto era se defender. Puxando Káli, correu em direção ao riacho.
As antenas das criaturas se moviam em frenesi; elas se separavam e preparavam-se para emboscar as presas.
“Gai, eu posso correr, mas não temos tempo... posso tentar... magia negra...”
Ela tentou argumentar. Mas ele prosseguiu falando:
“Água... esses bichos não nadam... e a corrente de água pode nos tirar daqui...”
Pularam no riacho, deixando que sua força os levasse. Káli só sentiu o gelo da água envolver-lhe a pele. Fechou os olhos, procurando pelas mãos de Gai. A correnteza era forte o suficiente para dificultar-lhe a respiração.
“Maldito cavalheiro, nem perguntou se ela sabia nadar!”, praguejou Káli, enquanto a água a envolvia.
A água os conduziu para longe dali, deixando as criaturas perplexas. As criaturas permaneceram estáticas depois que suas presas pularam na corrente do rio e silenciosamente voltaram para a mata fechada de onde originavam-se.
A água era gelada, mas o alívio de escapar daquelas criaturas diminuiu a sensação gélida sobre o corpo deles. Estavam sem destino, indo para onde a correnteza forte os levava, menos preocupados agora..
A corrente se movia veloz. As águas eram cinzentas, não de sujeira, mas de vazio, morte...
Káli respirava com dificuldade... Sentia as queimaduras mais do que nunca, nos pés e nas pernas... Não sabia se era a dor que a incomodava, ou se era o ar escasso... O cansaço já quase a vencia...
A escuridão tomou conta de ambos. Não entenderam se era a noite que caía, se era a morte que se aproximava, ou se um entravam ou saíam de um sono profundo. Como num filme, a vida de Káli passou por seus olhos, a infância na Floresta do Norte, a mãe sendo carregada pela Santa Inquisição.
O rio levou ambos para o braço esquerdo, mais acidentado. Agora havia pedras, muitas pedras. O breu continuava. A consciência estava sumindo.
Gai achou ter visto um raio de luz... sim, lembrou do sol... do dia em que a única mulher que ele amou partiu em direção à luz... e em que ele optou por ser eternamente sua sombra.
Káli sentiu q uma pedra cortou seu braço fundo. Sabia que Gai estava perto. Teve de se abraçar ao manto para não perdê-lo.
Tudo aconteceu rápido. Gai sentiu uma batida em suas costas, provavelmente uma pedra. Perdeu de vez a consciência. Agora, era Káli quem o estava salvando.
Inconscientemente, uma série de conjurações começaram a ser proferidas por Káli... uma magia para curar a dor e devolver-lhe o ar.
Ergueu o braço e agarrou-se a um galho. Segurou Gai com o outro braço, o que sangrava. Ele voltou ligeiramente à consciência. Sentia muitas dores nas costas e nas pernas. Com muita dificuldade, arrastou-se e a ele até a margem. Sentiu que desmaiaria. Havia água em seus pulmões. Uma dor incrível em seu corpo. Quando olhou para o lado, viu Káli que, com dificuldade, rastejava em direção à margem.
Gai fez seus últimos esforços se arrastando também, poupando a bruxa de fazê-lo. “Ei, bruxinha”, disse, quase sem fôlego. “Não vai morrer agora, ok?”. E apagou.
Káli fechou os olhos e respirou profundamente. Um último feitiço, foi tudo o que pediu à Deusa. Pousou a mão sobre a fronte do jovem cavalheiro.
Os dois perderam a noção do tempo em que permaneceram à margem do rio. Sem ânimo, Gai não parecia mais ameaçador para ela. E ordenou que a água de seus pulmões o abandonassem. E, num último esforçou, soprou o ar que lhe faltava, devolvendo-lhe à respiração.
Gai abriu lentamente os olhos e se deparou com o rosto de Káli.
“Bem-vindo ao Nada!” – disse ela, com ar preocupado.