segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Fayne e Yir / Botmit, o anjo caido

FAYNE E YIR

Ela dormia ainda, no chão que pensava ser sua cama, na floresta que pensava ser a sua e, quando acordou, fez o que fazia sempre que acordava, de olhos fechados: tateou gentilmente a cama procurando o marido enquanto aguçava a audição para ver se seus filhos estavam acordados. Ao fazê-lo, nada sentiu, o marido não estava na cama. Pensou então que ele estivesse com as crianças e tentou aguçar a audição. Nada, só os barulhos normais da floresta perto de sua casa. Teriam saído? Era pouco provável. Deviam estar fazendo silêncio para não a acordar.
Escutava apenas Yir, seu bichinho de estimação, e ele já teria percebido que estava acordada e iria chamar as crianças para pular na cama. Sorriu com aquele pensamento. Ela esperou, mas nada aconteceu, Yir não saiu de perto dela, ela não escutou risada de criança nem a voz do marido. Foi então que aquela cama lhe pareceu dura demais. E naquele momento Fayne lembrou que não estava em casa. Abriu os olhos, levantou-se num pulo e pegou seu cajado rapidamente, enquanto se lembrava dos eventos do dia anterior; teria sido no dia anterior? Quanto tempo tinha passado?
Seu coração começou a bater mais rápido, esperava um ataque. Mas onde estava aquele monstro? Olhou para todas as direções, estava com medo, queria fugir e se esconder, mas tinha que ser forte, iria sê-lo por aqueles que amava, iria vingá-los, talvez até salvá-los, parecia impossível, mas tinha que tentar.
Lágrimas escorriam por seu rosto, enquanto lembrava das cenas que vira, estava a começar a ficar frustrada, se ele estava ali porque não matá-la logo? Ou dar-lhe uma chance para o matar? Só isso que ela precisava: de uma chance, e iria aproveitá-la.
Então olhou para Yir, ele parecia também estar sofrendo, afinal, também perdera as pessoas que amava, porém, estava calmo, não deveria haver perigo, então ela relaxou.
Lágrimas eram agora como um rio. Ela perdera tudo o que lhe era precioso, tudo o que amava, de um momento para o outro, tudo por causa daquele monstro!
De qualquer forma, ainda não estava segura de sua situação. Ainda era necessário cautela. Reconhecer o território era o primeiro passo, e ela bem o sabia. Não. Definitivamente não era uma floresta. Era um vale. Montanhas a cercavam por todos os lados. Eram altas e de topo circular, de aspecto antigo e desgastado. Uma vegetação de pouca estatura a cercava e ocupava toda a estensão daquele sintuoso vale.
E agora? O que faria? Mas uma pergunta mais reticente estava na sua cabeça, o que era aquele lugar? Foi então que Yir congelou, seu olhar estava fixo em coisa alguma, estava assustado. Um mau presságio, algo estava por vir.
Ouviu o remexer das folhas das árvores, levantou a cabeça imediatamente. Pássaros. Algo se aproximava, e podia sentir que era perigoso. “Perigosos”, talvez. O solo, com alguns tufos de plantas rasteiras aparecendo e restos orgânicos esquecidos o combrindo, parecia tremer levemente.
Queria correr, sentiu um medo inexplicável do desconhecido, iria correr, mas tudo parecia tão vasto, poderia estar se afastando ainda mais de algum tipo de civilização, se é que existia alguma.
Yir se virou para Sul, sim, era para lá que eu deveria correr, ele detecta a presença de pessoas, pessoas? Ali? Naquele lugar tão remoto? De qualquer forma, seguiu o que Yir mostrara, afinal, ele fora criado de maneira a protegê-la. Enquanto corria, o som os passos que ouvira foram ficando mais longe, o que seria aquilo? Ela não sabia, mas também não queria ficar tempo o suficiente para descobrir, por isso correu, correu o mais rápido que pôde.
Ao sul, as montanhas ficavam maiores. A visão da floresta também ficara mais aberta e os passos do que me perseguiam então inexistiam.
O cansaço ameaçava... mas a confusão era um combustível a mais...algo que a movia para além, além de algo que não conseguia entender.Procurou acalmar-se finalmente, já que seu perseguidor desaparecera.



BOTMIT: UM ANJO CAÍDO

Estava de olhos fechados e não sentia mais nada em suas mãos, apertou com força procurando aqueles cabelos crespos. Abriu os olhos, e a primeira coisa que pensou foi "droga, não arranquei nem um fio daquele desgraçado"
Olhou para baixo e estava caindo: de repente, um choque, uma dor aguda: um galho o segurou. Naquele instante, talvez por causa da dor, a raiva passava, dando lugar a milhares de perguntas sem nenhuma resposta aparente.
Estranho. Nunca havia tido aquela sensação de queda. Então podia, enfim... entender o que era ser um anjo caído. Seria isso que ela era? Olhou em volta, a relva úmida. Um anjo caído?
Ele parecia perdido, olhava de um lado para o outro, e para suas mãos, como olhava para suas mãos! De uma hora para outra, como se estivesse conformado, ficou olhando para baixo, um olhar distante, perdido em pensamentos, tentando aplacar a própria dor.
Pensava no que fizera, tentava entender em como fora parar ali, e será que aquilo realmente importava? Não tinha mais Caren, ela estava no inferno, de nada adiantara. Não se importava mais em ficar ali pendurado para sempre.
Se o chão era o limite, então, melhor descer. Havia alguém com pressa lá embaixo. Tarde demais. Melhor pedir desculpas depois de limpar as roupas que, até ali, eram brancas. Ainda bem que um anjo fala todas as línguase, assim, poderia desculpar-se com aquela... aquela... oh, por Deus! Era uma... Elfa??? Oops... Havia jurado não dizer mais o nome de Deus. mas era difícil. Tecla sap: falar no dialeto elfo
A bela elfa, Fayne, se colocou em guarda sacando uma adaga escondida. Podia ser ele. Ia matá-lo. Sim, por isso estava lá. Partiu para cima dele sem verificar se era o certo ou não, movida pela amarga vingança.
Botmit não sabia o que fazer, não sabia se corria ou atacava os cabelos daquela elfa também. No meio da confusão, tudo o que teve tempo de fazer foi segurar as mãos dela e tentar acalmá-la, tentava ser cuidadoso, apenas se defender e entender por que aquela louca estava indo para cima dele, seria uma elfa beata?
Ele segurava as suas mãos, tentando detê-la, mas não a atacou; isso a deixou em dúvida, seria mesmo o monstro que ela temia? Talvez devesse falar com ele. Não. Muito arriscado, não ia correr esse risco.
- O que você faz aqui, seu monstro? Por que sugou suas almas?! - gritou enquanto ainda tentava atacá-lo.
O anjo caido ficou ainda mais apavorado. Qual era a daquela doida!? Talvez ela o tivesse confundido com outro, mas seu rosto era tão comum assim!? Bem, ela também parecia confusa, talvez devesse conversar com ela.
Ainda que caído, não perdera seus modos de anjo; o que a elfa dissera o deixou horrorizado, então disparou:
- Desculpe, mas acho que você está enganada. Não chamaria o que eu fiz de sugar almas, talvez um custo com cabeleireiro, nada demais.
- Como quer que eu acredite? Acha que vou cair nesse simples truque?- exclamou ela- Fala a meu idioma, e é estranho. Tal como o monstro que muda de forma. Ganhe coragem! Me ataque!
- Tive coragem de atacar Deus, acha que não teria coragem de atacá-la? Não preciso de coragem, preciso de um motivo e não tenho.- afirmou.
Desista. Não vou cair nesse truque! Devolva as almas das pessoas que eu amo. Agora!- Gritava, procurando uma falha na defesa do anjo.
- Ótimo, já estou pagando meus pecados.- pensou alto
- Pecados? Não sei do que está falando! Mas se não devolver as almas eu não vou mais me conter e vou acabar com essa conversa fiada - Falou, se mexendo um pouco mais rápido e quase acertando o estranho ser que se encontava na frente dela.
Embora falassem a mesma língua, pareciam não se entender. As últimas palavras da bela elfa ecoaram pelas montanhas que pareciam sumir no nauseante crepúsculo. Um barulho sereno transpunha a tulmultuada discussão.
A elfa não dava sinais de que desistiria facilmente: era hora de usar um truquezinho.
- Eu lhe juro, juro que não suguei alma nenhuma e não faço ideia do que está falando.- tentava colocar juizo na cabeça daquela elfa.
Uma espécie de borboleta pairava sobre os dois seres.
- Entao, como fala minha língua? Desista, não vou cair nas suas mentiras! desista dessa fachada! – Afirmava, decidida a não acreditar nas palavras do estranho.
O anjo sabia que não a iria convencer, podia ver em seus olhos que estava consumida pelo ódio, ele precisava de uma espécie de prova para convencê-la. Que tipo de coisa você nunca faria em um inimigo? Ele pensou em algo, mas ficou em dúvida sobre a reação da elfa e se conseguiria fazer aquilo, mas ela não deixava outra escolha, deu um suspiro, fechou os olhos e então deu um beijo rápido e sem jeito na testa da elfa. Um beijo angelical. De um anjo caído, todavia, de um anjo.
Com a sensação daquele beijo, parou, por que ele teria feito aquilo? Que razões teria para fazê-lo - e com tanta e sincera ternura... quase que... divina - se fosse seu inimigo? Duvidava muito. Então, decidiu se acalmar, dar pelo menos uma chance àquele estranho ser, afinal, Yir não detetara sinal de perigo, por que não tentar?
Antes que os dois pudessem parar para se entender, um vulto saltou de dentro da mata e devorou a estranha borboleta que planava práximo a eles. Depois virou sua cabeça artrópode maligna para perceber as estranhas criaturas pasmas ao seu lado, com as quais não estava acostumado. Estalou as presas de modo ameaçador, como se estivesse chamando algo.
A elfa parou, já nao chegava um ser estranho, agora tinha também um bicho ameaçador? Temos que fugir, pensou.
O animal pareceu ainda mais aborrecido e começou a avançar lentamente.
O anjo entrou na frente da elfa, era seu instinto, proteger :
- Corre que eu me viro com ele, corre.
Percebendo um movimento ofensivo, o ser, chamado primordial, partiu para cima da suposta comida, com mais fúria.
Então a elfa correu para o lado direito da criatura, em uma tentativa desesperada de salvar aquela pessoa que antes pensava ser seu inimigo.
- Voce está louco? Eu nao vou deixá-lo aqui para morrer, se sairmos daqui, vai ser juntos.
O anjo olhou para a elfa, confuso, uma hora queria matá-lo, noutra queria salvá-lo, mulheres! Ele precisava de um plano, uma maneira de saírem os dois vivos dali.
A fera se voltou para Fayne, que estava gritando, numa investida violenta. A elfa se desviou da investida da fera e, com toda sua velocidade, correu para trás do animal, atacando-o com uma adaga. Com um zumbido de dor, ele novamente se pôs em posição de ataque.
O anjo pulou nas costas da criatura antes mesmo que a fera pudesse se recompor totalmente, segurou-o, imobilizando-o. A criatura tentava atacá-lo com o ferrão de sua cauda. Botmit desviou uma vez, sem soltar da fera. O primordial tentou atacá-lo pela segunda vez, atingindo o braço esquerdo do anjo, que gemeu de dor.
A elfa tremeu ao escutar o grito do anjo, não estava acostumada a escutar gritos assim, de dor.
- O que você pensa que está fazendo?- gritou ela, enquanto começou a mormurar um feitiço. Então seu cajado, antes com uma joia azul, ficou vermelho e um passaro de fogo, como uma fênix, foi criado e começou a rondar o predador, que observava as chamas que o circulavam com curiosidade, como se quisesse brincar com elas.
Tola ilusão. Embora a criatura se sentisse atraída e divertida pela ave flamejante, esta lhe escondia suas verdadeiras intenções. Todavia, o odor da presa feliz era mais atrativo que qualquer fogo e este, sem hesitar pulou pelas chamas.
Seu pulo assustou a elfa, fazendo-a desequilibrar-se e perder controle da magia, o que fez a fênix sumir, um feitiço desperdiçado, ela começava a enfraquecer.
A tola criatura sentia as chamas tostarem seu corpo e emitia um grito de agonia que ecoava pela floresta. O primordial desabou exaurido, mas seus gritos se tornam cada vez mais nervosos e altos.
Botmit, com sua dor amenizada e controlada, pegou sua companheira pelo braço e a levou para longe das súplicas infernais.
Não poderia tê-lo feito em melhor hora, três novas criaturas, similares a que tinham ferido, aproximavam-se de sua companheira.
Apressaram-se em correr em direção às montanhas do sul, esperando que os animais não os seguissem.
A elfa com sua velocidade sobre-humana levava agora o anjo às suas costas, assim iriam mais rápido, talvez assim os despistassem. Depois de alguns minutos de fuga, parecia que haviam conseguido uma certa distância das criaturas que, apesar de fortes e resistentes, nao eram muito rápidas.
Fayne, então, pela primeira vez desde que chegara àquele "Nada", respirara aliviada.

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