SERES ALADOS, SERES SEM ASAS
HIKARI E SAULEN
Abriu os olhos muito azuis. A paisagem à sua volta era nova, diferente. Onde estavam as montanhas e árvores? Tentou se levantar, mas um dor lancinante percorreu todo o corpo. Caíra em cima de uma das asas, e os dardos fincados penetraram ainda mais fundo. O corte no ombro tambem ardeu, o sangue seco trincou e tornou a abrir a ferida.
Com esforço, conseguiu se sentar. Tudo à sua volta era vazio, um planície que se estendia até o horizonte. Ao longe, podia-se ver a silhueta de algumas montanhas, mas estavam a quilômetros...
Tirou os dardos da asa. Mais um choque de dor. Tinha de escapar daquele lugar, estava vulnerável. Ergueu as enormes asas brancas, manchadas de sangue, mas quando deu um impulso para decolar, apenas foi puxada para o chão novamente.
Estava mais pesada. Seriam os ferimentos? Não, tinha algo estranho naquele lugar, algo ameaçador. Estava sozinha, em perigo. Sozinha. Os acontecimentos anteriores voltaram à sua mente. Os olhos dourados malignos a fitavam com raiva, um corpo jazia frio aos seus pés. E a última flecha?, havia atingido o alvo? Tinha de se certificar. Se não, aquilo haveria de voltar para matá-la.
A alguns metros de distância da jovem de cabelos loiros, jazia uma outra pessoa. Uma outra coisa. A cabeça estava enterrada na poeira terrível, sufocante, mas ela não se importava, não respirava mesmo. Não se importava com nada na realidade, mas, no momento, seu sistema de segurança dizia para levantar ou ia acabar provocando danos à carcaça. Levantou.
Hikari se assustou com aquilo que começara a se mover. Não era humano, nem da sua espécie. Não tinha asas, o que lhe indicava um ser inferior. Não tinha cheiro, o que confundiu seus sentidos. Alarmada, buscou apresadamente seu arco e apontou a estranha figura uma flecha pronta a fugir de seus dedos, já que não conseguia voar.
Por mais que tentasse uma boa mira, a insólita figura que lhe surgia sob os olhos a fazia vacilar. Saule olhou ao redor, fazendo um rápido reconhecimento da área. Viu o ser alado que lhe ameaçava com armas primitivas. Seu banco de dados dizia que era uma flecha.
Não. Aquilo, definitivamente não era humano.
Analisando as expressões faciais da donzela, suas intenções eram violentas.
Não tinha tempo para cogitar o que era aquilo. Mirou no que parecia ser a cabeça e atirou
Os olhos robóticos viram o objeto pontudo se aproximando com velocidade. Não teve dificuldade em desviar, e assim o fez. Estranhou - seria possível alguém sem sentimentos estranhar? - que não tivesse ficado estática como mandava o manual, e se movera por vontade própria, colocando sua sobrevivência em um altar mais elevado que a obrigação de servir.
Errara! Como? Tinha a pontaria perfeita! Rapidamente lançou mais um projétil, dessa vez com as mãos tremendo intensamente.
Mais uma vez o ser sem asas desviou, enquanto examinava o inimigo alado, os trejeitos dela: ela estava nervosa. Devia ajudar, devia servir, seguir ordens. Foi criada para isso. Lançou a tradicional frase feita, mesmo que um tanto fora do contexto:
- Posso ajudar?
-Heim!? - exclamou o ser alado ainda mais confuso. Aquela coisa não falara em sua lingua. Aquilo falava! A voz era áspera e anormal, nao parecia viva. Nunca tinha ouvido algo como aquilo, o que a asssustou ainda mais. Seus instintos diziam que devia fugir, já nao estava em boas condiçoes e enfrentava algo novo. Ergueu as asas mais uma vez, e consegui subir alguns metros, mas logo caiu no chão com um barulho seco.
- Ai drogaaa, isso doi. Maldito planeta estranho!
Automaticamente, Saule detectou as palavras do ser à sua frente. Japonês. Sem maiores dificuldades, trocou a linguagem padrão pela da moça e repetiu a pergunta, inserindo dizeres próprios:
- Posso ajudar? Está machucada?
Os olhos azus se abriram ainda mais. Agora falava em sua língua! E ainda oferecia ajuda? Que coisa era aquela, sendo tão cortez?
- Não vê que eu estou machucada, seu esquisito? E se falava minha lingua por que não disso logo de início, heim? - agora estava apenas aborrecida, depois de perceber que o ser não oferecia tanto perigo. Ainda assim, não baixara a guarda.
Traços de raiva, palavras ofensivas. Saule tentaria amaciá-la:
- Perdoe-me, senhorita, não sabia que língua que a senhorita falava. Poderia ver seus machucados? Tenho certo conhecimento de primeiros socorros.
Hikari ficou realmente confusa e irritada ao mesmo tempo. Deixar um ser inferior como aquele cuidar de seus ferimentos? Nunca! E por que ele era tão gentil? Sentiu mais uma pontada de dor. Não, seu orgulho falava mais alto. Mas estava DOENDO! Não, não! Por que não? Droga!
- Ok, pode dar uma olhada - resmungou contrariada
A andróide se aproximou discretamente, cautelosa. Viu os membros estranhos que saíam das costas da garota. Humanos não têm asas, logo, ela não é humana. Talvez ela também fosse uma robô? Suas demonstrações de sentimentos eram incríveis. Não era robô.
Parte da pele de seu pulso robótico se deslocou e, de lá, saiu um dispositivo tubular, plástico. Desviou a água de seu reservatório, molhou as feridas da garota.
A garota pulou de susto. Aquela coisa estava cuspindo nela? De onde saíra aquele tubo comprido, seria sua lingua?
Hikari sentiu um cheiro novo. Humano. Delicioso o cheiro, um dos pratos favoritos de sua espécie. Mas o cheiro era fraco, parecia que algo o segurava e impedia de chegar até ela.
- A interação entre vocês é demasiadamente entediante
Falava um ser estranho. Seu corpo era coberto por uma carcaça metalica. Seus olhos ou qualquer expressao facil eram desconhecidas, seu rosto era coberto por um elmo. Sua voz era monocórdica, em que não se detectava qualquer emoçao.
O cheiro era humano. Mas, aquela caparaça de metal o cobria totalmente. Seria uma forma diferente da das armaduras que usavam em seu povo? – pensava Hikari.
Ergeu o arco e ordenou ao robo ao seu lado:
- O que esse humano imundo disse?
Saule traduziu para Hikari, satisfeita com a ordem. Então, voltou-se para o homem, e mais uma vez indagou se ela poderia ajudar.
- Por que está sendo gentil com ele!? E fale na minha lingua!
- Uma tradutora? Indague-lhe como veio a estas terras. Por qual nome atende? Por obséquio, perguntae à harpia qual seria o nome dela.
- Por que eu vou responder pra esse petisco que meu nome é Hikari? Opa! - Droga, droga, droga, falara sem pensar, de novo. Por que sempre fazia isso?
- Sou conhecida como Saule, e esta é Hiraki. Em que posso lhe servir, senhor...?
- Quais são suas especificações, androide?
- Ei, voce, coisa estranha! Diz pro cabeça de ferro aí pra ele dar o fora que eu nao estou a fim de papo! E me diz o que ele está falando, não quero ficar boiando!
Saule explica em japonês o que o homem dissera.
- O que é um androide? - perguntou curiosa
Ela ensinou à Hikari, como pedido.
- Heim? - Hikari nao entendeu absolutamente nada, que linguagem mais estranha.
- Voce pode, por obséquio, responder a minha pergunta? - A voz mantinha o mesmo tom
Ela respondeu de imediato, como se houvessem acionado um botão que despejava as palavras: - Unidade de inteligência artificial código 109, modelo inovador de energia. Nome popular: Saulė. Criada em função de auxiliar os humanos.
- Interessante. Agora queiram me acompanhar para que eu possa conduzir os exames necessários? - Disse enquanto, apontava para o nordeste dali
- O que ele disse? - Perguntou a suposta harpia, que nao era nada disso, e se soubesse que o humano a chamara daquele modo, com certeza, já haveria pulado para cima dele.
- Ele disse: "Interessante". Pausa. "Agora queiram me acompanhar para que eu posssa conduzir aos exames necessários". - Saule repetiu no mesmo tom de voz que o desconhecido, como se apenas o timbre feminino e a língua tivessem sido alterados.
- Segui-lo? Até parece, eu nao obedeço a COMIDA – respondeu Hikari, ultrajada
- A harpia resmungou algo de útil? Ela não parece muito feliz.
Mais uma vez, Saule empenhou-se como intérprete
- Ela me vê como alimento? Interessante, precisarei depois fazer um exame no trato digestório dela. Por hora. - Levantou o braço e disparou um dardo contra a perna da criatura mítica. - É melhor que ela durma
- Maldit... - Hikari sentiu uma dormencia no corpo e desabou no chão.
-Deduzo que seja uma tradução inútil. - Pegou o corpo adormecido da futura cobaia e ajustou-o sobre os ombros – Vamos, androide?
Temo dizer que foi meio rude de sua parte adormecê-la desse modo - ela disse, inexpressiva, mas, mesmo assim o acompanhou.
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